A fotografia tem mais de um século.

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Estamos na varanda do Observatório Astronómico de Lisboa, na Tapada da Ajuda, em abril de 1912. Um homem observa o céu, outro prepara o equipamento fotográfico, enquanto, ao lado, se registam cuidadosamente as observações.

Não é um dia qualquer.

A 17 de abril de 1912, milhares de portugueses pararam para olhar para o Sol.

Esperava-se um dos grandes acontecimentos astronómicos da época: um eclipse que atravessaria Portugal e que despertava a curiosidade não apenas dos cientistas, mas de toda a população.

Havia, porém, uma pergunta que nem os próprios astrónomos conseguiam responder com absoluta certeza:

O eclipse seria total ou anular?

Na Tapada da Ajuda preparava-se o grande dia

Muito antes de os portugueses levantarem os olhos para o céu, o fenómeno já estava a ser estudado na Ajuda.

O Observatório Astronómico de Lisboa preparou uma publicação especialmente dedicada ao acontecimento: Circunstâncias do Eclipse Anular-Total de 1912 Abril 17 em Portugal, uma brochura editada pela Imprensa Nacional, com explicações, cálculos, gráficos e mapas destinados a antecipar aquilo que iria acontecer.

Logo no início surgia uma passagem que, mais de um século depois, não deixa de nos fazer sorrir.

Dizia-se que «todas as pessoas instruídas» conheciam já a teoria dos eclipses e que as restantes, mesmo sem a conhecerem, já não teriam, «pelo menos, a ideia de uma serpente monstruosa espreitando o movimento dos astros e assaltando-os na passagem».

Era uma referência às antigas explicações mitológicas para os eclipses, durante séculos associados a criaturas fantásticas que engoliam ou atacavam o Sol.

Em 1912, a mensagem que partia da Tapada da Ajuda era bem diferente:

o eclipse não era para temer. Era para compreender.

Mas nem tudo estava esclarecido.

Os cálculos astronómicos divergiam e havia dúvidas sobre se, em Portugal, seria possível assistir à ocultação completa do Sol.

Ovar encontrava-se numa posição privilegiada e tornou-se um dos principais centros de observação. Para aquela região dirigiram-se astrónomos portugueses e expedições científicas estrangeiras.

O interesse popular foi enorme. Foram organizados comboios especiais e, na noite anterior, entre os passageiros que seguiam para norte, discutia-se aquilo que todos queriam saber.