
É a primeira entrevistada do Festival Corpo.Lx.26. Bailarina da Companhia Nacional de Bailado e fundadora das Masterclasses CNB, Carla Pereira acredita que a dança ganha verdadeiramente significado quando sai dos palcos e se aproxima da comunidade.
O Festival Corpo.Lx.26 aposta em espetáculos e atividades de entrada livre. Faz sentido levar a dança para fora dos teatros?
Faz todo o sentido. Ainda há muitas pessoas que nunca assistiram a um espetáculo de dança, seja porque nunca tiveram oportunidade, seja porque acham que "não é para elas". Quando levamos a dança para o espaço público ou organizamos eventos gratuitos, essa barreira desaparece.
É muito bonito ver famílias inteiras a parar para assistir, crianças curiosas e pessoas que descobrem uma realidade completamente nova. Muitas vezes, esse primeiro contacto é suficiente para despertar o interesse pela dança.
Mais do que assistir, as pessoas sentem que fazem parte da experiência. É assim que se criam novos públicos e se reforça a ideia de que a cultura deve estar ao alcance de todos.
A proximidade entre bailarinos e público também ajuda a mudar essa ideia de que a dança é uma arte distante?
Sem dúvida. Quando as pessoas conhecem os artistas, fazem perguntas e percebem o trabalho que existe por trás de um espetáculo, passam a olhar para a dança de outra forma.
A dança deixa de parecer algo reservado a especialistas e passa a ser vista como uma linguagem artística acessível, capaz de emocionar qualquer pessoa. Essa proximidade cria empatia e faz com que o público se sinta verdadeiramente envolvido.
Ao longo da sua carreira também tem apostado na formação. Porque é tão importante levar profissionais às escolas?
Porque os alunos precisam de conhecer quem vive esta profissão no dia a dia. Não é apenas aprender novos exercícios ou aperfeiçoar a técnica. É perceber como se constrói uma carreira, quais são os desafios e como funciona o trabalho dentro de uma companhia profissional.
Esses encontros são muito enriquecedores e, muitas vezes, acabam por influenciar o percurso de quem está a começar. Além da componente técnica, transmitem valores como a disciplina, a dedicação, o espírito de equipa e a paixão pela profissão.
Foi uma das fundadoras das Masterclasses da Companhia Nacional de Bailado. Como nasceu esse projeto?
Nasceu de uma ideia muito simples: aproximar a Companhia Nacional de Bailado das escolas e dos jovens bailarinos.
Queríamos criar oportunidades para que mais alunos pudessem aprender diretamente com profissionais da Companhia, independentemente da escola onde estudam ou da região do país onde vivem. Era uma forma de tornar este conhecimento mais acessível e de partilhar aquilo que fomos aprendendo ao longo da nossa experiência.
Sempre acreditei que a excelência artística deve ser partilhada e que o acesso à formação não deve depender das oportunidades de cada um.
Quais são os principais objetivos das Masterclasses?
Naturalmente existe uma componente técnica muito importante, mas o objetivo vai muito além disso.
Pretendemos inspirar os participantes, estimular a criatividade, criar momentos de partilha e mostrar diferentes formas de trabalhar e pensar a dança. Ao mesmo tempo, ajudamos a aproximar escolas, professores e profissionais, fortalecendo toda a comunidade da dança.